A torcida do Flamengo – O maior patrimônio do clube desde 1895

Torcida do Flamengo
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Nos grandes e gloriosos momentos da história dessa instituição, ela, a Torcida, estava lá. Eles e elas, por sinal. Milhares. Milhões de pessoas de diversas raças, religiões, classes sociais, opiniões ideológicas diferentes. Nos piores momentos, eles também estavam lá. Chorando juntos, sofrendo juntos, gritando os clássicos cânticos até o apito final – e depois também. Independente do resultado.

A torcida do Flamengo é um dos maiores fenômenos socioculturais que esse país já produziu, em tamanho e em expressão. Identificável nos quatro cantos do país – e em quase todos do mundo -, é uma torcida tão apaixonante quanto apaixonada.

Uma torcida que para alguns é chata, mas temos diversos motivos para isso: além de podermos ostentar uma prateleira de títulos de inveja, ainda somos temidos justamente por ser a torcida que somos. É como uma história de amor, no mais factível dos casamentos: torcida e time juntos, nas alegrias e nas tristezas, nos momentos de sofrimento e nos de glória.

Foi mais de um século marcando nome, enchendo estádios Brasil e mundo afora, demonstrando sua força, empurrando o seu time e atormentando a mente de jogadores, técnicos e torcedores adversários. Hora de conferir uma retrospectiva histórica sobre nossa torcida!

Antes de ser a maior – o início de tudo

O início da popularidade do Flamengo está intimamente ligado a uma das maiores características históricas do clube: a raça. Os flamenguistas são dotados de garra e vontade desde antes do clube ser fundado. Em 6 de outubro de 1895, meses antes da fundação do clube, os seis jovens remadores saíram para remar no Pherusa, barco que eles tinham recém-comprado. Porém, uma tempestade acabou o velejamento: a embarcação virou e os náufragos precisaram se agarrar ao barco para não afogarem.

Antes mesmo do início do Fla, os atletas que o representavam já demonstravam indícios de garra e superação. E foram esses sentimentos que ajudaram fortemente o Flamengo a conquistar sua popularidade, mais à frente. Quando o clube formou seu departamento de futebol e passou a disputar o Campeonato Carioca, em diversas temporadas entre os anos 1910 a 1930, o Rubro-Negro ganhava jogos mesmo não sendo favorito em algumas ocasiões (Fluminense e Vasco montaram ótimos times nessa época), muitas vezes com viradas heroicas ou gols no final. Aos poucos, o clube conquistava a afinidade dos torcedores.

Outro fator importante, e um dos primeiros responsáveis por, de fato, associar o Flamengo às camadas mais populares, foi o primeiro campo do time. Depois que o departamento de futebol foi criado, o clube não tinha lugar para jogar ou treinar. Sendo assim, os jogadores passaram a usar um campinho de futebol localizado na extinta praia do Russel, na Glória, que também era usado por crianças e pessoas da região.

Marcel Pereira, em seu livro “A Nação”, escreve que “a garotada acompanhava o time do Flamengo no campo. Para Alberto Borgerth (responsável pela criação do Depto. de futebol), ali estava a explicação de tudo. A falta de um campo fez o Flamengo aproximar-se do povo, misturar-se a ele. Os garotos, em busca de ídolos, iam ao encontro deles no campo do Russel. Podiam toca-los, devolver as bolas que iam fora. E haviam de contar em casa que tinham conhecido Nery, batido nas costas do Amarante, que tinham apertado a mão do Baiano”.

“O Mais Querido do Brasil”

Em 1927, o Flamengo já tinha o seu nome marcado no Rio de Janeiro. Era um dos times com maior número de torcedores, com a conquista de 6 títulos estaduais até então. Então, o Jornal do Brasil promoveu um concurso no Rio de Janeiro para decretar qual seria o time “mais querido do Brasil”. A competição insistia em comprar jornais que vinham com cupons que deveriam ser preenchidos com o time de preferência.

O Vasco tinha apoio de comerciantes portugueses, e portanto, tinha mais dinheiro. O clube rival, então, comprou diversas edições de jornais e preenchia os cupons, como se um torcedor vascaíno contasse para 10 cupons. Os flamenguistas ficaram atônitos. Todos sabiam que naquele momento, o Flamengo já tinha mais torcida, mas não conseguia fazer essa artimanha que o Vasco utilizou. Sendo assim, torcedores do Flamengo reagiram: eles foram até a entrada do Jornal do Brasil com uniformes do Vasco e bigodes postiços, imitando o sotaque português. Então, os flamenguistas recolhiam os sacos de votos que iam chegando e os jogavam na privada, o que inclusive entupiu os vasos sanitários no local. Depois disso, os votos foram jogados em fossas de elevadores.

Quando os votos foram apurados, os vascaínos ficaram sem reação. O Rubro-Negro foi declarado campeão, vencedor da Taça Salutaris e detentor do título de “mais querido do Brasil”. Embora já fosse um clube conhecido pela cidade e pelo estado, esse título foi importantíssimo na construção da imagem que temos da torcida do Flamengo, em questão de expressão.

José Bastos Padilha e a construção da mística

A década de 1930, dentro de campo, foi ruim para o Flamengo. Só viemos a conquistar um título carioca em 1939, em meio a campanhas ruins no Estadual. Ainda assim, essa é, provavelmente uma das décadas mais importantes da história do Flamengo, por conta da revolução administrativa, financeira e popular pela qual o time passou nesse período, por conta do presidente José Bastos Padilha.

Até aquele momento, o Flamengo era um clube elitista. Se hoje, temos a maior torcida do Brasil e a mais popular conforme estatísticas, é necessário agradecer a José Bastos Padilha. Ele foi o responsável por ter a visão de dar uma nova identidade ao clube, com um vínculo total ao povo.

Leia também: Símbolo do Flamengo: o voo do Urubu em 1969

Padilha começou mudando o clube de forma administrativa, criando o quadro de sócios para acumular renda e construindo o estádio da Gávea. Então, ele contratou três jogadores negros que eram estrelas da seleção brasileira: Domingos da Guia, Leônidas da Silva (dois dos nossos maiores ídolos até hoje) e Fausto. Além da qualidade em campo dos jogadores, um dos objetivos com isso era criar uma identificação do clube com as camadas menos abastadas da torcida.

A segunda medida de Padilha foi promover campanhas que associassem o Flamengo ao espírito nacionalista que estava em voga na época, por conta das propagandas exaltando o país do governo Getúlio Vargas (1930-45). O slogan da época, “O Flamengo ensina a amar o Brasil sobre todas as coisas”, mostra bem isso. O clube foi o primeiro a se colocar como um time que “representava o Brasil e os anseios da nação” através de comunicados a federações. Em um FlaFlu de 1936, por iniciativa do Rubro-Negro, também foi a primeira vez que o hino nacional foi cantado antes da partida.

Cartaz de 1937 mostra o quanto o Flamengo se associava com o nacionalismo

Foi se associando desses conflitos, que eram muito atuantes no imaginário do brasileiro trabalhador da época, que o Flamengo conseguiu se firmar como o clube do povo, no final da década de 1930. Ao se firmar como o time do trabalhador, a expansão para o Brasil aconteceu de forma natural. O clube também fez excursões pelo país, o que ajudou na popularização. E o advento do rádio ajudou; pelo Rio de Janeiro ser capital do Brasil na época, as partidas do Campeonato Carioca eram transmitidas por todas as terras tupiniquins.

O próprio futebol já dava indícios de que estava seguindo um rumo mais popular, e o Flamengo foi o primeiro time a se apropriar disso. Nesse mesmo FlaFlu de 1936, a iniciativa do Jornal dos Sports criava uma “competição de torcidas”: se antes as pessoas iam ao estádio para sentar e assistir ao jogo, nessa partida, os torcedores deveriam levar bandeiras, faixas, roupas com cores do times, cantar e torcer.

Era algo inédito para o futebol do país. O Flamengo perdeu em campo, mas na guerra de torcidas, o resultado foi incontestável em favor do rubro-negro. Apenas alguns anos depois disso, em 1942, foi criada, por Jaime de Carvalho, a Charanga Rubro-Negra, primeira torcida organizada do Flamengo e uma das primeiras do Brasil.

Nos anos 40 e 50, o Flamengo já era tido como a maior torcida do país

A consagração da maior torcida do Brasil

Nesse momento, a torcida do Flamengo já estava consolidada quase como a conhecemos hoje: provavelmente a maior do Brasil, com camadas populares e muito vibrante. A mística apenas aumentou após a construção do Maracanã em 1950, que serviria de palco para inúmeras conquistas do Rubro-Negro. Impossível dizer como seria o destino do Flamengo sem o Maracanã, pois a simbiose time-torcida no Templo do Futebol é de uma ligação raríssima.

Em 1963, pela final do Campeonato Carioca, a torcida do Flamengo registrou uma marca histórica: no FlaFlu que decidiria o título, 194.603 pessoas no Maracanã (provavelmente foram mais que isso, já que teve invasão). O maior público da história de uma partida de clubes até hoje. Toda a pressão funcionou, e o empate em 0 a 0 garantiu o título ao Flamengo em uma das maiores festas que a cidade já viu.

Imagina estar aí no meio da muvuca! FlaFlu de 1963, com cerca de 200.000 pessoas

O Flamengo também é detentor de todo o top 3 maiores públicos do Maracanã (e, consequentemente, do Brasil): em 1976, na vitória por 3 a 1 sobre o Vasco, 174 mil pessoas estiveram presentes. Anos antes, em 1969, 171 mil assistiram à derrota do Flamengo para o Fluminense por 3 a 2. Ambas as partidas foram pelo Campeonato Carioca.

Nesse ponto, o Flamengo já era o time de maior torcida do Brasil, e também conhecido por ser um dos mandantes mais temidos do país. Obviamente, ter a maior torcida fazendo o maior estádio do país tremer não era para qualquer um. Essa era a expressão do torcedor: sofrido, vibrante, emocionado. Assim como ele sempre quis que fosse o seu time em campo, com a farda vermelha e preta.

A década mais vitoriosa e a força das arquibancadas

Sabemos que nosso sucesso na década de 1980 se deve a um dos maiores times da história do futebol, que em sua maioria, surgiu das categorias de base do Flamengo. Mesmo assim, é difícil dizer se conseguiríamos ter ganhado todos aqueles títulos, não fosse o incansável apoio da torcida.

Mais um domingo qualquer na gloriosa década de 1980

A torcida lotou o Maracanã nos jogos das campanhas do tri brasileiro de 1980, 1982 e 1983. Dos quatro maiores públicos da história do Brasileirão, os dois primeiros são dessa época, assim como o quarto colocado. A torcida encheu o Templo do Futebol na final de 1983, quando colocou cerca de 155.523 pessoas na primeira despedida de Zico. Em 1980, na conquista do título inédito, 154.335 compareceram e empurraram o time para a vitória nos últimos minutos, com gol de Nunes. A quarta posição também é da final de 1982, contra o Grêmio – apesar do jogo decisivo ter sido no Olímpico.

Parece hoje em dia? Torcida do Flamengo esperando o trem para a final do Brasileirão 1982

E assim como em 2019, a torcida se fez presente no jogo em campo neutro da final da Libertadores – disputado em Montevidéu, no Uruguai, contra o Cobreloa – e em Tóquio, quando ganhou com autoridade do Liverpool por 3 a 0. Não apenas nesses lugares, as ruas do Rio de Janeiro e do Brasil viveram dias de festança. O Flamengo tinha o mundo em suas mãos e o torcedor podia comemorar!

Final do Mundial, em 1981

Algumas práticas que conhecemos hoje, que faz parte da cultura de torcidas, começaram antigamente. Na final do Brasileirão de 1983, que foi decidida no Maracanã, a torcida do Flamengo foi até o hotel onde estava a delegação do Santos e passou a noite fazendo a festa, dificultando o sono dos rivais. Resultado: 3 a 0 e o tri nacional no dia seguinte!

Dessa final, também vale lembrar a verdadeira invasão flamenguista no Morumbi, no jogo de ida. Os “AeroFlas” também já existiam nessa época, embora com menor divulgação. Já havia a prática de recepcionar o time voltando campeão de outro estado ou país.

Torcida do Flamengo no Morumbi em 1983, na final do Campeonato Brasileiro. Invasão flamenguista

E assim, seguiu-se o laço indestrutível entre time e torcida. O final da década de 1980 e início de 1990 ainda traria mais títulos nacionais, como os Brasileirões em 1987 e 1992 e a Copa do Brasil, em 1990. Em todas as ocasiões, a torcida do Flamengo marcava presença e empurrava o time mesmo em jogos difíceis. E por mais que o restante da década de 1990 tenha sido marcada por não ter sido tão vitoriosa, a torcida do Flamengo nunca deixou de lotar o Maracanã, ainda na época da geral, e cantar.

Outra tarde qualquer no Maracanã em 1979

Hoje em dia: tempos ruins, “sempre ao seu lado” e a redenção

Se a década de 1990 não foi das melhores, algo parecido pode ser dito da década de 2000. Contratações que não condiziam com a grandeza do Flamengo e diversas temporadas lutando contra o rebaixamento, além do que possivelmente foi o maior vexame da história do clube em 2004. Mas adivinha? A torcida comparecia mesmo assim ao Maracanã, não abandonando o time mesmo nos piores momentos. Mesmo que fosse para cobrar. Afinal, já sabemos: cobrar é uma das maiores demonstrações de amor. Quando o filho está indo mal na escola, o pai não deve passar a mão na cabeça; deve cobrar para que ele seja o melhor possível, sempre.

Mesmo que alguns momentos sejam de cobrança, o apoio continua incondicional. Uma das maiores provas disso foi em 2007. O time se encontrava na 19ª colocação. Mas a torcida deu um show completo no restante do campeonato: ela compareceu nos jogos, cantou como nunca e empurrou o time para a 3ª colocação no final do campeonato!

Um dos grandes destaques foi a vitória em cima do campeão desse ano, o São Paulo, por 1 a 0, em um Maracanã com quase 70.000 pessoas. Essa foi a estreia da música “Tu és time de tradição”. O Rubro-Negro teve 8 dos 10 maiores públicos dessa edição, além da maior média. O clube ganhou o prêmio “Torcida de Ouro” da edição e o dia 28 de outubro foi considerado o “dia do flamenguista”. Confira a emocionante matéria do Globo Esporte:


Link: https://www.youtube.com/watch?v=ZYXsDG7sIL4

Outra arrancada marcante foi a de 2009. Nessa edição, que consagrou o hexa brasileiro, o time perdeu apenas duas vezes no segundo turno e conseguiu se recuperar após ficar até nove posições atrás do líder. Outro título gigante empurrado pela torcida. Nessa edição, o Flamengo também ficou com a maior média de público: 41.553.

O jogo do hexa

O Flamengo precisou ficar alguns anos sem montar grandes times para se reestruturar financeiramente na década de 2010. Mesmo assim, a torcida empurrou o time não tão qualificado de 2013 para o tri-campeonato da Copa do Brasil. E após mais alguns anos de derrotas, como eliminações em Libertadores e vice-campeonatos em competições importantes, a espera valeu a pena e a torcida pôde ser essencial mais uma vez em um dos maiores anos do clube: 2019!

Sob o comando de Jorge Jesus, o Flamengo ainda não perdeu no Maracanã e foi o melhor mandante do Brasileirão em que foi hepta, com uma média assustadora de 58.222 torcedores! E no início de 2020, quando os jogos tiveram que ser sem torcida por conta do coronavírus, muitos alegaram que o desempenho do time abaixou sem a sua torcida para apoiar.

“Eu juro que no pior momento…”

Vou te apoiar até o final. O que não faltam são evidências históricas para corroborar cada um dos versos que flamenguistas anseiam por cantar no domingo, faça chuva ou faça sol. Não é à toa que nenhum jogador do Flamengo pode usar a camisa número 12, pois essa é reservada à torcida.

Ela é um jogador que joga junto. Bem apelativo, diga-se de passagem. É até uma certa covardia com o oponente fazer com que todo jogo já comece 1 a 0 para o Flamengo apenas pela torcida empurrando quando os times entram, quando o jogo começa.

Somos um dos clubes mais vitoriosos do Brasil. Mas nunca precisamos disso. Mesmo quando não éramos tudo isso, apenas o vermelho e o preto já incendiava nossas paixões e atiçava nossos sentimentos mais profundos.

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